By: in9web | Marcos Pastor
sábado , 3 janeiro 2026
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Política

Duas matérias recentes trataram da movimentação política de Geraldo Simões, mas partiram de pressupostos completamente distintos. Enquanto uma se manteve ancorada nos fatos e no contexto político atual, a outra optou por construir uma narrativa marcada por ironia, desqualificação pessoal e conveniência seletiva. Essa diferença não é estética, é política.

A abordagem factual reconhece o que está posto. Após mais de quatro décadas de militância no Partido dos Trabalhadores, Geraldo Simões admite publicamente a possibilidade de mudança de sigla e confirma diálogo avançado com o PSOL, dentro de um processo de reorganização política com foco em 2026. Trata-se de um fato político objetivo, que pode ser analisado, criticado ou debatido, mas não negado.

Já a narrativa acusatória escolhe outro caminho. Resgata um episódio específico do passado, a presença de Geraldo em palanque dividido com ACM Neto apoiando Pancadinha, e o transforma no eixo central de uma suposta “traição”. O problema é que essa leitura ignora deliberadamente o presente, e é exatamente aí que a farsa se revela.

Hoje, Pancadinha integra a base política aliada ao presidente da Câmara de Itabuna, Manoel Porfírio. Esse dado é incontornável para qualquer análise honesta. Se dividir palanque em determinado momento era traição, como deve ser classificada a aliança atual? A pergunta não aparece no texto acusatório porque a resposta desmontaria toda a construção narrativa.

Esse tipo de ataque não se limita a atingir uma figura política específica. Ele funciona como instrumento para deslegitimar uma trajetória histórica inteira. O alvo real é o significado de décadas de militância, organização partidária e construção política do PT em Itabuna. O esforço coletivo é reduzido a caricatura, enquanto o partido local hoje se encontra sob o comando de um prefeito de outra sigla, com identidade política diluída e distanciamento crescente de sua base.

Há ainda um ponto que o discurso da “traição” faz questão de silenciar. A última votação do PED foi marcada por denúncias graves de fraude, questionamentos formais e ausência de esclarecimentos até hoje. Não houve resposta clara aos filiados, não houve transparência no processo, não houve correção pública das irregularidades apontadas. Esse esvaziamento interno ajuda a explicar o atual cenário de rupturas e reposicionamentos. Transformar consequência em traição é uma inversão conveniente, mas intelectualmente desonesta.

A quem interessa essa narrativa? Certamente não ao debate político sério. Ela protege alianças atuais que não resistiriam ao mesmo rigor moral aplicado seletivamente ao passado. Beneficia grupos que hoje controlam estruturas de poder local e precisam desviar o foco da crise interna partidária. E tenta reescrever a história recente para silenciar questionamentos legítimos.

Não se trata de defender nomes ou trajetórias individuais. Trata-se de separar fato de conveniência. Quando a crítica abandona o contexto e recorre ao deboche, deixa de informar e passa a operar politicamente.

A movimentação de Geraldo Simões não é um ato isolado nem um capricho pessoal. É sintoma de um partido local que perdeu identidade, diálogo e respeito com sua própria base. Negar isso pode servir a interesses momentâneos, mas não altera a realidade política que está posta em Itabuna.

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