By: in9web | Marcos Pastor
quarta-feira , 7 janeiro 2026
| Reage Itabuna | Marcos Pastor
Lar Economia Julgamento do STF pretende pacificar o tema
Economia

Julgamento do STF pretende pacificar o tema


O Supremo Tribunal Federal (STF) está prestes a decidir sobre um dos temas mais espinhosos das relações de trabalho: a chamada “pejotização”, termo usado para descrever a contratação de pessoas jurídicas ou trabalhadores autônomos sem vínculo empregatício.

O julgamento está relacionado ao Tema 1389 no STF, e deverá estabelecer os limites dessa modalidade, que abrange um caldeirão de situações e controvérsias. A principal delas diz respeito à utilização da prática para mascarar relações trabalhistas, o que, segundo sindicatos e juristas, resulta em restrição de direitos e na precarização do trabalho formal.

O imbróglio tem se intensificado com a expansão dos serviços de profissionais de tecnologia, comunicação, advocacia, saúde e até motoristas de aplicativo como pessoas jurídicas, emitindo nota fiscal. A estimativa é que o tema envolva mais de 15 milhões de microempreendedores individuais (MEIs).

Por outro lado, empresas reivindicam o direito à terceirização, legitimada para qualquer atividade produtiva pela reforma trabalhista de 2017, que deixou explícito que é possível contratar outra pessoa jurídica para que os seus sócios ou empregados prestem serviço, sem vínculo formal.

O resultado são cerca de 34,6 mil processos na Justiça, segundo dados do Tribunal Superior do Trabalho (TST), e uma grande divergência de entendimentos. Juízes da Justiça do Trabalho têm reconhecido vínculos empregatícios em casos considerados “PJ de fachada”.

A questão é que os recursos julgados pelas turmas do STF têm validado acordos entre empresas independentes, levando em consideração a liberdade contratual.

“Há uma clara divergência entre as posições dos tribunais trabalhistas, do próprio Tribunal Superior do Trabalho e do STF”, afirma o doutor em Direito Carlos Eduardo Ambiel, do Ambiel Bonilha Advogados. “O STF precisa ter uma posição unificada.”

VEJA TAMBÉM:

Na tentativa de pacificar o assunto, o ministro Gilmar Mendes, relator de um recurso extraordinário no tribunal, determinou em abril a suspensão de todos os processos – trabalhistas, cíveis e comerciais – relativos à modalidade até que o plenário julgue o mérito.

A decisão terá repercussão geral, ou seja, o entendimento que o Supremo firmar servirá de referência obrigatória para todo o Judiciário. “É uma decisão vinculante”, explica Ambiel. “Aquilo que o Supremo decidir passará a valer em relação ao Tribunal Superior do Trabalho, aos Tribunais Regionais do Trabalho e às Varas do Trabalho, porque assim determina a Constituição.”

STF precisa estabelecer critérios e responsabilidades

O desafio do plenário do Supremo será decidir sobre questões específicas que têm gerado ambiguidade nas sentenças. Na análise de reclamações originadas nas cortes trabalhistas, o STF tem reiteradamente decidido que é válida a liberdade contratual, se não houver prova de “vício de consentimento”, ou seja, de irregularidade.

“A jurisprudência dos tribunais trabalhistas costuma ratificar a ideia de que prevalece a primazia da realidade, ou seja, o que efetivamente ocorreu durante a contratação de uma pessoa jurídica”, explica Ambiel. “Se houve trabalho pessoal com subordinação de forma onerosa e habitual, os tribunais do Trabalho reconhecem o vínculo.”

O STF terá, portanto, que especificar os requisitos de contratação de pessoa jurídica que configuram relação de emprego disfarçada. Além disso, será preciso determinar a responsabilidade pelo ônus da prova, ou seja, quem deve provar a existência de fraude – se o trabalhador ou a empresa.

“Há uma leitura do STF de que essa prova do vício depende de uma demonstração efetiva de coação, simulação ou fraude”, explica. “E a legislação trabalhista não exige essa prova; exige apenas que estejam presentes os fatos da relação de emprego, o que tem embasado decisões de primeira instância. Essa dúvida precisa ser dirimida pelo plenário.”

Pejotização envolve fiscal e previdência

Para Navarro, além do viés trabalhista, a discussão do STF tem implicações tributárias, previdenciárias e políticas. “O ministro Gilmar Mendes, ao optar por realizar audiência pública antes do julgamento, entendeu que as questões ultrapassam a mera ação trabalhista”, diz.

“Temos a questão do custo da previdência no Brasil, que é arcado com os valores pagos ao INSS pelas empresas e funcionários”, lembra. “Poderá haver redução significativa no caso da ampliação da pejotização, o que afetaria diretamente as receitas.”

A audiência pública determinada pelo decano da Corte, realizada em 6 de outubro, reuniu 43 representantes de empresários, trabalhadores, governo e acadêmicos, além de integrantes da PGR, da AGU e do Ministério do Trabalho.

Durante as exposições, entidades empresariais defenderam a manutenção da liberdade contratual e da autonomia das partes, enquanto sindicatos e procuradores pediram limites mais claros à pejotização e à terceirização de atividades.

Representantes do governo também manifestaram preocupação com o uso indevido do regime. O advogado-geral da União, Jorge Messias, classificou a prática como uma “cupinização dos direitos trabalhistas”, enquanto o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, advertiu que o MEI, criado para formalizar pequenos empreendedores, vem sendo desvirtuado para encobrir relações típicas de emprego.

José Pastore, especialista em relações de trabalho, destacou que as formas de contratação existentes aumentam a competitividade e favorecem a geração de empregos. Para ele, o contrato de pessoa jurídica não configura subordinação jurídica, garante contribuição regular à Previdência Social e eventuais ajustes devem recair sobre a alíquota ou o modelo de arrecadação.

Supremo tende a conciliar liberdade e direitos, preveem juristas

Juristas acreditam que a decisão do Supremo – esperada para este ano – tende a buscar um consenso. Tattiana de Navarro, procuradora de Assuntos Tributários da OAB/DF, acredita que o julgamento será um paradigma e aponta para uma padronização das decisões “em respeito à segurança jurídica”. “Não se trata de uma ‘liberação geral’ da pejotização, mas da definição clara e palpável de quando ela pode ser utilizada pelas empresas”, diz.

Para Fabrício Barcelos, especialista em Direito e Processo do Trabalho e sócio do Lara Martins Advogados, o STF deve manter o posicionamento de que existem formas diversas de trabalho além das previstas na CLT, mas garantir que aqueles que se encontram em “situação ilegal perante seus empregadores possam continuar exercendo e requerendo seus direitos”.

“Há uma tendência majoritária, pelo menos nos julgamentos precedentes nas turmas, em ampliar as hipóteses de contratação de PJ ou do trabalho autônomo”, diz. “Mas o ato de retirar alguém do contrato celetista e torná-lo um prestador de serviços ou autônomo com a finalidade exclusiva de fraudar direitos trabalhistas, ou seja, para economizar encargos trabalhistas, será sempre ilícito, previsto na própria reforma trabalhista.”

Para Ambiel, considerando as decisões anteriores do STF, é possível arriscar que o Pleno valide uma forma mais abrangente para a pejotização. “Mas há expectativa de que seja feita uma ressalva: nos casos em que ficar provada a fraude e a verificação da relação de emprego, isso poderá prevalecer”, diz.

Também é esperado que o Supremo faça uma modulação de efeitos, definindo a partir de quando valerá a nova regra e como separar os casos em que a pejotização é lícita daqueles em que poderá ser reconhecido o vínculo se presentes as condições estabelecidas na CLT.

O efeito será relevante para resolver a insegurança jurídica, destaca Ambiel. Para ele, o mais importante, diz, não é o resultado em si — se mais favorável à proteção do trabalhador ou à liberdade contratual —, mas que exista uma definição clara. “Com a regra conhecida, fica mais fácil e mais seguro para a operação da sociedade, dos empresários e dos empregados”, resume.



Source link

Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados

Economia

Alessandro Vieira representa na PGR contra ministro Jhonatan de Jesus, do TCU

O senador Alessandro Vieira (MDB-SE), protocolou nesta quarta-feira (7) uma representação ao...

Economia

Falta de transparência no Novo PAC aumenta risco de fraudes

Um estudo da ong Transparência Internacional aponta graves falhas de transparência no...

Economia

Prefeitos marcam protesto contra “pautas-bomba” em tramitação no Congresso

A Confederação Nacional de Municípios (CNM) convocou, nesta quarta (7), um protesto...

Economia

Venezuela pode influenciar Petrobras e contas públicas

A prisão de Nicolás Maduro e a iminente volta de petroleiras americanas...