Movimento em Ibicaraí expõe fragilidades antigas, desgastes acumulados e a dificuldade do prefeito Augusto Castro em sustentar o projeto familiar rumo à Assembleia Legislativa
A movimentação política em Ibicaraí acendeu um alerta que Itabuna já deveria ter percebido faz tempo. A debandada de vereadores e até do vice-prefeito, que agora se aproximam de Rosenberg Pinto, não é apenas uma troca de apoios. É o sinal mais explícito de que o projeto eleitoral de Andréa Castro está longe de ser consenso e, pior, carrega um desgaste que ultrapassa fronteiras municipais.
E o impacto é ainda mais simbólico quando lembramos de um detalhe fundamental. Se até a cidade onde Augusto nasceu e onde sua história política começou se afasta do projeto familiar, isso revela que o desgaste ultrapassou todas as fronteiras.
A ruptura tem nome e contexto. Demétrio Castro foi apenas o estopim
O texto publicado por Edcarlos Santos descreve Demétrio como a faísca que provocou um abalo sísmico na pré-campanha de Andréa, mas toda faísca só vira incêndio quando o terreno está seco. E o terreno político da primeira-dama já vinha ressecado desde a última eleição estadual, quando ela tentou disputar a Assembleia pela primeira vez e precisou recuar.
A eleição passada deixou marcas profundas
Na época, Andréa era secretária de Promoção Social, e a pressão foi intensa. Entre críticas de uso político da pasta e resistência interna, ela acabou entregando o cargo e retirando seu nome da disputa.
A situação ficou ainda mais delicada por um motivo que Itabuna e toda a região não esqueceram. A enchente histórica.
Enquanto voluntários e organizações se desdobravam para atender famílias desabrigadas, a titular da assistência social demorou dias para aparecer, surgindo apenas quando os danos mais graves já haviam sido amenizados. Esse vazio de liderança no auge da crise virou um divisor de águas na percepção pública sobre sua capacidade política.
Mesmo depois de deixar a pasta, o desgaste social continuou respingando sobre seu nome. O exemplo mais recente foi o caso dos venezuelanos, quando famílias imigrantes ficaram em condições improvisadas, sem alimentação adequada, sem estrutura mínima e sem acompanhamento digno da assistência social atual. Embora Andréa já não estivesse no comando, o episódio reforçou a crítica de que o núcleo político ligado ao prefeito, do qual ela segue como figura central, não entrega respostas humanitárias eficientes nem coordenação social mínima.
Somados, esses episódios formam um passivo político que ressurge sempre que seu nome volta à mesa como possível candidata.
Um projeto familiar que tenta avançar, mas carrega peso demais
Hoje, Augusto tenta reposicionar Andréa como candidata a deputada estadual em 2026. Busca apoio estadual, articula com lideranças e tenta embalar sua pré-candidatura como símbolo de força feminina e trabalho social.
Mas política não se sustenta apenas em narrativas. E o projeto enfrenta três camadas de desgaste.
- A memória da enchente, que expôs incapacidade de resposta num momento de calamidade.
- A desistência anterior, interpretada como fragilidade e falta de densidade política.
- As recomendações e investigações recentes do Ministério Público, que põem em questão contratos, eventos e práticas administrativas centrais do governo.
A recomendação do MP sobre o ItaPedro, apontando fracionamento indevido de contratos, subcontratação irregular e execução parcial de serviços, soma-se aos ruídos envolvendo a EMASA e a migração para a EMBASA. É carga demais para uma candidatura que tenta se apresentar como nova representação do sul da Bahia.
Cargos por apoio e nomeações sem qualificação aprofundam o desgaste
Outro elemento que ajuda a explicar a perda de força do projeto familiar é a forma como a gestão tem conduzido a relação política com vereadores e lideranças regionais. A prática cada vez mais evidente de oferecer cargos em troca de apoio, muitas vezes ocupados por pessoas sem qualquer qualificação técnica, tornou-se uma marca negativa da administração. Esses arranjos produzem dois efeitos imediatos. Fragilizam a estrutura pública por dentro e colocam o prefeito e sua pré-candidata em posição de dependência permanente de acordos frágeis, caros e insustentáveis.
Na medida em que a máquina passa a servir como moeda de troca política, o projeto perde credibilidade e distancia ainda mais qualquer tentativa de apresentar Andréa como liderança preparada e capaz de representar a região na Assembleia. Em vez de demonstrar força, a gestão expõe vulnerabilidade e reforça a percepção de que apoios só se mantêm enquanto houver nomeações para distribuir, não por convicção ou confiança real na candidatura.
Ibicaraí apenas reagiu ao que o tabuleiro já mostrava
Quando Edcarlos afirma que, ao sair Demétrio, o grupo migrou para outro eixo de poder, ele apenas verbaliza o que muitos já percebiam. O projeto Andréa não sustenta uma base sólida nem no berço eleitoral do prefeito.
Rosenberg Pinto, com trajetória consolidada e alto poder de articulação, ocupou rapidamente o espaço. Ibicaraí enviou um recado direto.
Se nem a cidade eleitoral de Augusto sustenta o projeto familiar, por que outras cidades sustentariam?
A perda de Ibicaraí não é apenas política. Ela é simbólica e estratégica.
Conclusão. Ibicaraí disse em voz alta o que muitos já pensavam em silêncio
O movimento dos vereadores e do vice-prefeito não é indisciplina. É diagnóstico. É leitura de risco. É cálculo político.
Enquanto Augusto tenta transformar a pré-candidatura da esposa em projeto dinástico, as lideranças regionais fazem o que sempre fizeram. Migram para onde enxergam estabilidade, coerência e força real.
Ibicaraí, a cidade eleitoral de Augusto, apenas foi a primeira a deixar claro que não pretende carregar um projeto que acumula omissões na assistência social, falhas em respostas humanitárias, recomendações do Ministério Público, práticas de nomeação questionáveis e fragilidade política persistente.

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