O contrato de R$ 1.080.000,00 firmado pela Prefeitura de Itabuna para a aquisição de 10 mil cestas natalinas reacende um debate antigo na cidade. A discussão não se limita ao valor do contrato ou ao custo médio de R$ 108 por kit, mas avança para um terreno ainda mais sensível, o histórico de denúncias sobre desvios e uso político de fichas de cestas básicas e natalinas no município.
Ao longo de diferentes gestões, Itabuna já conviveu com relatos frequentes de que fichas destinadas à população em vulnerabilidade social acabavam desviadas do objetivo original. As denúncias apontam que parte dessas fichas teria sido repassada a vereadores, lideranças políticas e presidentes de bairro, transformando uma política assistencial em instrumento de capital político.
Um dos episódios mais citados nos bastidores da política local envolve um áudio que circulou em grupos de WhatsApp, atribuído ao próprio prefeito de Itabuna à época. No conteúdo, o gestor supostamente orienta o então diretor da Assistência Social, identificado como Rafael, a separar cerca de 45 fichas de cestas básicas para um político que, naquele momento, era ex-vereador e que hoje ocupa novamente mandato eletivo. O áudio nunca foi formalmente esclarecido à população, mas passou a integrar o conjunto de suspeitas que cercam a distribuição desses benefícios.
Esses relatos ajudam a explicar por que ações de grande volume financeiro, como a atual distribuição de cestas natalinas, despertam desconfiança social. Mesmo quando anunciadas com critérios técnicos, como cadastro no CadÚnico e renda per capita limitada, permanece a pergunta que a gestão pública insiste em não responder com transparência total: quem fiscaliza efetivamente a entrega final das fichas e quem garante que elas não sejam apropriadas por interesses políticos.
A própria narrativa institucional costuma tratar a distribuição das cestas como um gesto de dignidade e solidariedade, mas ignora o histórico de denúncias que envolve esse tipo de ação em Itabuna. Para críticos, enquanto não houver divulgação clara da lista de beneficiários, mecanismos independentes de controle e prestação de contas detalhada, o risco de desvio permanece.
Diante de um Natal marcado por contratos milionários e discursos emocionais, o debate que a cidade precisa enfrentar vai além da boa intenção anunciada. Ele passa, necessariamente, pela transparência, pelo controle social e pelo rompimento definitivo da cultura de uso político da assistência social.

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