O debate levantado sobre o chamado “acesso solidário” tenta deslocar o foco do que realmente foi questionado na matéria publicada. O ponto central nunca foi a doação de alimentos ou produtos de higiene. Doar é positivo. O que está em debate são os gastos públicos envolvidos no Carnaval antecipado de Itabuna.
Conforme divulgado em redes sociais e citado na matéria, o evento pode alcançar cerca de R$ 30 milhões, com aproximadamente 50 atrações nacionais, gastos milionários com trios elétricos e forte uso de emendas parlamentares. Esses números não são contestados no texto que circula em grupos. Eles são simplesmente ignorados.
O questionamento é objetivo:
como justificar um evento dessa magnitude financeira em uma cidade com graves problemas sociais, enquanto se utiliza o discurso da solidariedade como elemento de legitimação?
A matéria também aponta que, na prática, quem leva doações tem acesso mais rápido ao evento, inclusive em filas de revista. Ainda que a entrada não seja formalmente condicionada, há sim diferenciação de acesso, o que levanta debate legítimo sobre isonomia e impessoalidade em evento financiado com recursos públicos.
Invocar princípios constitucionais sem enfrentar os dados financeiros não esclarece o debate. Legalidade formal não substitui transparência, nem responde à pergunta sobre prioridades do gasto público.
O que se espera de quem se propõe a analisar o tema tecnicamente é enfrentar os números, explicar os contratos, detalhar as fontes dos recursos e esclarecer por que milhões são destinados à festa enquanto políticas sociais permanentes seguem frágeis.
Fiscalizar gastos públicos não é ressentimento nem oposição inoportuna.
É dever cívico e interesse público.
Solidariedade é valor.
Mas ela não substitui o debate sobre quanto se gasta, como se gasta e a quem isso serve.

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