Na manhã de hoje, uma publicação amplamente divulgada nas redes sociais chamou a atenção de parte da população de Itabuna. O conteúdo informa que a primeira-dama do município, também pré-candidata a deputada estadual, participou de uma reunião de “alinhamento” do Carnaval antecipado, ao lado do prefeito e de secretários municipais.
A reação do público foi imediata e dividida. Enquanto alguns aplaudem, outros questionam. E é exatamente nesse ponto que o debate precisa sair do campo da torcida e entrar no campo da cidadania.
A primeira pergunta que qualquer eleitor atento deve fazer é simples e objetiva: qual é a função institucional da primeira-dama em reuniões de planejamento administrativo?
No ordenamento jurídico brasileiro, a figura da primeira-dama não possui atribuição legal, administrativa ou orçamentária própria. Trata-se de uma posição de natureza social, não de um cargo público formal. Assim, sua participação em reuniões oficiais não decorre, por si só, de função técnica ou administrativa, salvo se houver designação formal, vínculo contratual ou ato administrativo devidamente publicado em diário oficial, o que, quando existente, deve ser transparente e acessível ao cidadão.
Quando essa presença passa a ser amplamente divulgada como mérito político, especialmente em contexto pré-eleitoral, surge um alerta legítimo. Não se trata de questionamento penal ou imputação de ilegalidade, mas de um debate ético, administrativo e democrático sobre os limites entre gestão pública e promoção política pessoal.

Outro ponto que não pode ser ignorado é o uso simbólico da máquina pública. Reuniões, agendas institucionais, planejamento de festas populares e decisões administrativas são custeadas, direta ou indiretamente, com recursos públicos. Transformar esses espaços em vitrine política individual ou familiar gera uma confusão preocupante entre interesse público e interesse privado.
Não se trata de acusar ilegalidade sem provas. Trata-se de algo mais profundo e estrutural: a naturalização da ocupação informal de espaços de poder por laços familiares, criando a percepção de projetos políticos personalistas ou de continuidade familiar no comando da administração pública.
Os comentários deixados por cidadãos nas redes sociais, muitos deles críticos, não podem ser tratados como ataques gratuitos. Eles refletem uma sociedade que começa a questionar práticas historicamente toleradas, como a mistura entre família, governo e campanha política antecipada.
Há também uma responsabilidade que precisa ser dita com clareza. O eleitor não é um espectador passivo. Projetos políticos familiares só se consolidam porque encontram votos, silêncio ou aplausos. A democracia não se fragiliza apenas por quem exerce o poder, mas também por quem aceita, relativiza ou normaliza determinadas práticas.
Enquanto áreas essenciais como saúde, educação e serviços básicos enfrentam dificuldades recorrentes, é legítimo que a população questione prioridades administrativas, a presença em agendas festivas e o foco narrativo da gestão pública.
Por fim, é importante registrar que esta análise se baseia exclusivamente em fatos públicos, manifestações públicas e no exercício do direito constitucional à crítica política. Não se atribui crime, dolo ou ilegalidade específica a qualquer pessoa mencionada. O objetivo é informar, provocar reflexão e fortalecer a consciência cidadã.
Democracia se constrói com transparência, com limites claros entre o público e o privado e, sobretudo, com eleitores atentos, críticos e responsáveis pelas escolhas que fazem.

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