Quando se fala em bar ou restaurante, as primeiras características que vêm à mente dizem mais sobre os atributos boêmios ou gastronômicos do lugar. Mas, no Rio de Janeiro, o botequim também pode ser avaliado por outros predicados. Afinal, é no bar que se cultiva boa parte da cultura das ruas da cidade, em uma saborosa encruzilhada de sentidos que se atravessam. Para o professor e historiador Luiz Antonio Simas, a função dos botequins cariocas pode ser comparada à de uma ágora no auge da democracia grega, espaço público em que cidadãos atenienses se encontravam para participar de debates, assembleias e festivais.
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Hoje, o balcão, as mesas do salão e até mesmo as calçadas logo em frente concentram os mais diversos personagens, histórias impressionantes, angústias e anseios do cotidiano. Portanto, entre o chope bem tirado e um petisco no capricho, cabe de tudo um pouco: de aulas a exposições de arte, passando por lançamentos de livros, exibições de filmes e até uma banca de jornal repaginada, que vende, entre outros produtos, de exemplares do GLOBO a ilustrações, vinil e revistas.
Simas faz valer sua máxima há anos, com os encontros ministrados por ele na calçada do bar Madrid, na Tijuca, Zona Norte do Rio. Em um dos últimos, em setembro, intitulado “A peleja de Getúlio Vargas contra Zé Pelintra e Lampião”, o pensador carioca falou do combate da ditadura varguista a malandros e cangaceiros, sem respiros, a não ser para bebericar uma cerveja, correspondido por uma plateia atenta, entusiasmada e igualmente abastecida de uma gelada.
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— São costuras inusitadas, mesmo, numa tentativa de dialogar com a cultura popular, em temas que não costumam ser contemplados pela escola tradicional, assim como os santos populares e a história do samba. E, com isso, mostrar que o saber tem que circular pelo asfalto, pelos bairros, além de fortalecer a cultura dos bares. A minha produção literária, além disso, é sobre as ruas; sou um rueiro — resume ele.
Depois da aula, ainda rola uma sessão informal de autógrafos dos seus livros. Em uma de suas obras, inclusive, Simas recorre à etimologia do botequim, no termo grego apothéké (depósito), que originou também botica, biblioteca e bodega, para defini-lo como “um centro de manutenção e circulação do saber, como as bibliotecas; um lugar onde se preparam medicamentos para o corpo e a alma, como as boticas; e uma taberna onde se come e se bebe com simplicidade, sabor e sustância, como as velhas bodegas”.
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O também escritor Alberto Mussa é outro que embarcou na ideia do bar como um espaço de saber e de trocas. Avesso a formalidades, ele trocou os lançamentos convencionais de livros, no conforto das livrarias climatizadas, pelo calor das ruas. No ano passado, quando publicou o romance policial “A extraordinária Zona Norte”, o fez acompanhado de uma roda de samba e um bate-papo no Al Farabi, casa acostumada a receber autores e sambistas no Boulevard Olímpico.
— Tenho um par de sapatos e umas três calças compridas. Prefiro andar de chinelo, mais informal. O bar me deixa à vontade. Com uma cerveja, a coisa fica mais descontraída, as pessoas podem conversar, e consigo ter acesso a um novo leitor, que pode estar por ali e de repente se interessa pelo que escutou ou viu — observa Mussa.
Vizinho do tradicional Armazém Senado, no Centro, o Braseiro Labuta faz da arte um dos princípios de sua existência. O restaurante conta com uma exposição — meio permanente, meio itinerante — de fotografias e pinturas selecionadas a rigor por um dos sócios, o artista plástico Raul Mourão. Por lá, além de anotar o ponto da carne e a medida exata do colarinho, os garçons precisam ser versados nas artes visuais. Os clientes podem acessar um “cardápio” com as obras presentes no recinto, com informações sobre seus autores e, para as que eventualmente estão à venda, preços.
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— A ideia foi levar arte contemporânea para um braseiro, de um jeito forte, eficiente e dando espaço para gente nova. E, dos artistas mais jovens aos mais consagrados, há obras aqui que poderiam estar em qualquer acervo de museu — enaltece Mourão.
Já o Birosca, localizado em um casarão na Glória, na Zona Sul, é abarcado por um espaço cultural pensado sob o olhar atento da fotógrafa Nana Moraes. Ao curtir uma música na laje, os frequentadores ficam a um lance de escada do salão principal, ora ocupado por fotografias, ora por pinturas ou esculturas.
— Quanto mais diversificado melhor, assim como o nosso público. E temos uma procura e um interesse crescentes pelo espaço — conta Ligia Moraes, filha de Nana e uma das donas do bar.
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No popularíssimo Chanchada, em Botafogo, as paredes de lambris do boteco não foram suficientes para as manifestações artísticas. Por isso, há quatro meses eles fundaram a banca C.I.N.Z.A. (sigla para Cultura Independente, Notícias, Zines e Arte), em meio a mesas e cadeiras de aço. Lá, comercializam jornais, livros, palavras-cruzadas, louças do bar e obras de artistas dos quatro cantos do Brasil. Sem contar os sorvetes artesanais e a charutaria nacional. Para um dos sócios, o chef Bruno Katz, a iniciativa fez com que a casa voltasse a “surfar no hype”:
— Trouxemos uma galera de fora do eixo, além de pequenos produtores locais. Hoje, atendemos do jovem hipster à velha guarda.
O cinematográfico Cine Botequim, no Centro, pede atenção para o que se vê. E torcida do cliente para que a sessão seja de seu longa favorito. Afinal, ali o frequentador encontra bons filmes para assistir, acompanhado de uma gastronomia bacana, além de cerveja gelada e drinques autorais.
São exibidos filmes clássicos, como “Gilda” e “2001 — Uma odisseia no espaço”, e servidos drinques e pratos que levam nomes de longas premiados como “Touro indomável” e “Laranja mecânica”. Equipamentos de cinema e pôsteres compõem o ambiente. E nada de ficar só na pipoquinha. Para beliscar, a casa sugere o “Cidade de Deus”, coxinha de galinha com molho picante, entre outras sugestões. A coleção de petiscos homenageia grandes nomes, títulos e personagens do cinema. Há sessões todos os dias, a partir das 11h30, que seguem até o movimento acabar.
*Estagiário sob supervisão de Giampaolo Morgado Braga

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