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de ex-BBB a jornalista, influenciadores miram jovens em contraponto à onda ‘red pill’


Um homem jovem, na casa dos 20 e poucos anos, falando para a câmera sobre pornografia e masturbação com o objetivo de atingir outros homens jovens como ele. A descrição poderia servir para incontáveis canais e perfis que difundem discurso masculinista e misógino na internet, em um fenômeno que preocupa autoridades e especialistas, mas não é só de opiniões e teorias sexistas que se alimenta o debate digital sobre o que significa ser homem. Há nas redes um número crescente de influenciadores que buscam se contrapor à abordagem agressiva — e ainda predominante — de seus pares.

A bola da vez é o ex-BBB soteropolitano Lucas Pizane, de 23 anos. Em um vídeo postado em maio, que ultrapassou dez milhões de visualizações, ele defende a ideia de que consumir pornografia é um vício e alerta sobre os possíveis malefícios do hábito — o que, apesar de não ser consenso no meio da psicologia e da neurociência, também vai na contramão do que é mais frequentemente pregado na “machosfera”, termo usado para caracterizar a bolha de conteúdo feito por homens para outros homens, dominada pelo viés conservador e extremista conhecido como “red pill”.

Apesar de fazer parte de uma minoria, o influencer baiano não pode ser definido como um “lobo solitário” na internet. Cada vez mais produtores de conteúdo abordam o desenvolvimento e o papel social dos homens de maneira consciente.

Sem necessariamente se aprofundar em debates políticos ou ideológicos, tampouco empunhando abertamente bandeiras como a da igualdade de gênero, esses influenciadores mesclam postagens sobre os temas mais variados, de esporte e cinema até moda e alimentação saudável, com dicas de relacionamento numa abordagem mais sensível com as mulheres.

— Lembro de ter visto uma matéria sobre um caso de estupro virtual feito por adolescentes no Discord, e aí eu decidi tomar para mim essa responsabilidade de tentar criar uma consciência, pelo menos na minha comunidade — conta Pizane.

Há espaço, por exemplo, para relatos sobre casos de instabilidade mental e emocional, tópicos que são um tabu dentro do conceito tradicional de masculinidade. No canal de Youtube do jornalista paulistano Edson Castro, de 38 anos, que soma 260 mil inscritos, é possível encontrar vídeos e lives com chamadas que vão desde “Nove dicas de relógios para homens” até “Como eu lido com a minha ansiedade”.

— Acho que é mais importante a gente falar das potências de masculinidades diferentes, a gente não precisa anular uma expressão de masculinidade para ressaltar outra — frisa Castro.

Já o influencer carioca Matheus Sodré, de 29 anos, atrai mais de 500 mil seguidores entre Instagram e Tiktok com vídeos sobre cultura e fotos do próprio cotidiano, além de videoensaios sobre estudos que analisam a presença de jovens nas redes sociais. Entre os três citados, ele se difere dos demais não só por pautar o conteúdo em pesquisas acadêmicas, e não em experiências próprias, mas também por ser o mais engajado politicamente. À esquerda no espectro ideológico, o comunicador acredita que o avanço da extrema direita é indissociável do crescimento da bolha “red pill” e do discurso masculinista ecoado nas redes, mas afirma que a militância não é um propósito do seu conteúdo:

— O meu trabalho não é de esquerda ou de converter pessoas ideologicamente. Eu só não acredito que homens devem ser criados para odiar mulheres.

Para os “red pills”, estes influenciadores, que não compartilham uma visão extremista de masculinidade, são considerados inferiores. A eles, é dado o nome de “blue pill”. Os dois termos deturpam o enredo do filme Matrix, de 1999, no qual a ação de optar pela pílula vermelha representa a libertação individual em um mundo fictício e a capacidade de enxergar a verdade por trás de tudo, enquanto optar pelo comprimido azul manteria o personagem em um universo de faz de conta.

Embora fuja de rótulos, Edson Castro só admite uma classificação para sua presença nas redes: anti-“red pill”. Segundo ele, o confronto com o feminino, estimulado pelos masculinistas, é injusto com as mulheres e prejudicial para o desenvolvimento pessoal dos próprios homens:

— A gente tem que falar com esses caras sobre trabalho, saúde financeira e mental. E a terceirização do problema em torno do “inimigo em comum” não é construtiva para um homem que deveria estar focado em melhorar a própria qualidade de vida.

Desconstruídos? Não necessariamente

Figurinha carimbada na internet desde 2012, Edson Castro não é exatamente um novato na “machosfera”. O jornalista diz que, apesar de se diferenciar dos “machões” digitais desde o começo, já não se orgulha tanto de alguns posicionamentos do passado, que, segundo ele, reproduziam a imaturidade da idade e um senso comum hoje visto como ideias atrasadas. Foi preciso, assim, acompanhar a evolução do debate, ainda que Castro se diga avesso ao termo “desconstruído”, por conta do estereótipo que viu ser criado em torno da palavra.

Lucas Pizane tem opinião semelhante: diz que a masculinidade é um conceito particular e que, portanto, não há razão para se enxergar como “descontruído”. Politicamente, o influenciador baiano não se considera um progressista, preferindo se declarar neutro.

— Meu partido é “Lucas Pizane”, gosto de adotar coisas de vários pontos de vista — desconversa.

A escritora e neuropsicóloga Amanda Bastos explica que os seres humanos têm, por natureza, a tendência de imitar características de terceiros a partir da identificação, além de uma necessidade de se anexar em algum grupo. Um fenômeno que, via de regra, tende a favorecer a propagação do discurso “red pill”, por seu foco na criação de uma comunidade masculinista.

— Dentro da psicologia social, existe uma teoria que diz que, quando nos vimos reconhecidos em algum grupo, a gente acaba se aproximando de uma maneira mais intensa — destaca.

Já Luciane Belin, pesquisadora do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NetLab/UFRJ), pondera que existe, sim, um grande espaço a ser conquistado por homens que não compartilhem dessas visões extremistas:

— Hoje, até existe uma quantidade considerável de conteúdo não “red-pill” na internet, mas isso é principalmente capitaneado por mulheres — destaca Belin, acrescentando que é preciso cobrar também as plataformas, cujos algoritmos acabam privilegiando conteúdos masculinistas. — Em geral, elas protegem muito esses influenciadores em nome da liberdade de expressão. A lógica das big techs privilegia o discurso polêmico, e essa polêmica nasce do que choca. Por isso, quão mais absurdo e agressivo o conteúdo, maiores as chances de chegar em um grande número de pessoas, incluindo homens jovens e influenciáveis.

(estagiário sob supervisão de Luã Marinatto)



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