Após a Petrobras mostrar preocupação com o preço do petróleo e sinalizar que vai reduzir os custos, o mercado financeiro já prevê o fim do ciclo dos dividendos turbinados da estatal. Para analistas ouvidos pelo GLOBO, a perspectiva de pagamento dos dividendos extraordinários está cada vez mais distante.
Na terça-feira, Magda Chambriard, presidente da companhia, durante a teleconferência com analistas para falar sobre os resultados do primeiro trimestre, disse que é hora de “apertar os cintos”, referindo-se a custos e investimentos.
Em coletiva de imprensa, horas depois, a executiva falou em “enfrentar o desafio do novo cenário de preços”, com o petróleo na casa dos US$ 60, cerca de US$ 20 mais barato do que no primeiro trimestre do ano passado, quando o barril ficou na faixa dos US$ 83.
Em 2024, a Petrobras pagou R$ 75,8 bilhões em dividendos, dos quais 28,7% foram para o governo federal, maior acionista. Do total pago no ano passado, R$ 20 bilhões foram em dividendos extraordinários, tema que gerou uma crise entre o antigo presidente da estatal, Jean Paul Prates, e o ministro de Minas e Energia (MME), Alexandre Silveira, culminando na queda do primeiro.
O dividendo extraordinário só é pago quando há sobra de caixa. Já o ordinário segue uma fórmula entre dívida, receita e geração de caixa.
Na segunda-feira, a estatal anunciou o pagamento de R$ 11,7 bilhões em dividendos ordinários referentes ao resultado do primeiro trimestre de 2025. De janeiro a março de 2024, o valor pago havia sido de R$ 13,5 bilhões.
Segundo Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, a estatal tem espaço limitado para dividendos extraordinários em 2025 porque a geração de caixa está sendo pressionada pela queda da cotação internacional petróleo e a alta dos investimentos.
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Ele lembra que diversas casas de investimentos já retiraram suas expectativas de pagamento de US$ 2 bilhões em proventos extras pela estatal para 2025:
— O fluxo de caixa livre foi impactado negativamente, o que afeta a capacidade de distribuir dividendos extraordinários.
Além disso, a dívida líquida aumentou 28%. Isso reduz a folga para pagamentos adicionais aos acionistas. Vejo que o mercado está interpretando que a era dos dividendos extraordinários elevados pode estar chegando ao fim, pelo menos no curto prazo.
Segundo Carlos Braga Monteiro, CEO da consultoria Grupo Studio, o mercado começa a “precificar” o fim do ciclo de dividendos turbinados.
— A leitura é de que a Petrobras tenta sinalizar um novo equilíbrio entre retorno ao acionista e compromissos de longo prazo. Embora a política de dividendos ordinários ainda seja relevante, o apetite por extraordinários pode se tornar cada vez mais pontual, dependendo do petróleo e da vontade política do controlador.
Cotação vai definir distribuição, diz Galdi
Para Pedro Galdi, analista de investimento da plataforma AGF, a luz amarela acendeu com o petróleo a US$ 65 por barril. Segundo ele, a sinalização é de aperto em gastos e, inclusive, revisão do plano estratégico.
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— Caso o preço do petróleo permaneça nesta faixa, fica distante uma decisão sobre o dividendo extraordinário. Creio que, se houver uma recuperação de preço da commodity, o tema voltará à mesa. Mas, no curto prazo, me parece que irão continuar sinalizando espera — diz Galdi.
Estatal diz que tema está sob avaliação
Durante a coletiva de imprensa, Fernando Melgarejo, diretor Financeiro e de Relacionamento com Investidores da estatal, disse que os dividendos extraordinários para 2025 e para os próximos anos ainda serão avaliados.
— Se o Brent continuar mais baixo, ficam mais difíceis os pagamentos extraordinários.
O diretor explicou que, além do preço do barril, será preciso avaliar o volume de investimentos e o fluxo de caixa, além da necessidade de capital de giro e a liquidez esperada.
— Se verificarmos que o valor em tesouraria é superior ao necessário, então avaliamos.
Dificilmente dividendos extraordinários se repetirão
João Daronco, analista da Suno Research, classifica como baixa a probabilidade de distribuição de dividendos extraordinários. Ele acredita que chegou ao fim o cenário de pagamentos elevados de dividendos com o atual ciclo de preços do petróleo:
— O atual patamar do petróleo se encontra mais baixo do que no histórico recente, o que pode pressionar a geração de caixa. Aliado a isso, temos um endividamento mais alto, que é um impeditivo para a distribuição dos dividendos extraordinários. Até em um cenário em que o brent volte a subir, fica a incerteza se a companhia repassaria essa alta nos preços, o que poderia acarretar em inflação.
Segundo Galdi, a guerra tarifária e seus efeitos devem continuar gerando incertezas a curto prazo.
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— Temos que acompanhar o comportamento do preço do petróleo e a influência da OPEP (cartel que reúne os maiores produtores do mundo) em controlar a relação entre oferta e demanda. Qualquer sinalização de uma confirmação de acordo comercial com a China pode se refletir no preço do petróleo
Atualmente, do portfólio da Petrobras, 98% dos projetos resistem do ponto de vista da viabilidade financeira a um petróleo a US$ 45 por barril. Em alguns casos, eles suportam se a commodity chegar a US$ 28.
— O problema não é a ausência de lucro, mas a combinação entre investimentos crescentes, incerteza no preço do petróleo e um governo que pode optar por priorizar o reinvestimento na empresa em detrimento do retorno ao acionista — disse Monteiro.

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