Um escândalo envolvendo fraudes sistemáticas em testamentos vem chamando a atenção de autoridades, herdeiros e especialistas no sul da Inglaterra. No centro da trama, estão nomes de origem húngara, testamentos forjados e patrimônios que somam milhões de libras, desviados por supostos “amigos” de pessoas falecidas. Uma investigação da BBC revelou que criminosos exploram brechas do sistema britânico de inventário, com acesso público e online, para se apropriar de bens de pessoas que morreram sem deixar testamento registrado.
O caso das irmãs Lisa e Nicole ilustra bem a gravidade do problema. No fim de 2023, elas foram informadas por uma empresa de localização de herdeiros, a Anglia Research Services, de que haviam herdado toda a fortuna da tia Christine Harverson, incluindo uma casa avaliada em quase £1 milhão (R$ 7,4 milhões), no sul de Londres. Christine, viúva e sem filhos, não deixara testamento — o que colocava as sobrinhas como herdeiras legítimas.
No entanto, o processo de inventário foi bloqueado quando um homem chamado Tamas Szvercsok apresentou um testamento datado de 2016, que o nomeava como “amigo querido” e único herdeiro. O documento causou estranheza: a casa listada no testamento sequer existia em 2016, Christine já estava debilitada e sem receber visitas, e o texto excluía inclusive seu próprio marido, que ainda era vivo na época. A vizinha e cuidadora da idosa nunca ouviu falar de Szvercsok.
Mesmo diante das evidências, a polícia se recusou a investigar, orientando as sobrinhas a entrarem com ação judicial — o que custaria dezenas de milhares de libras.
— Tudo o que isso trouxe foi miséria. É um pesadelo — desabafou Lisa à BBC.
Fraude organizada: esquema se repete com novos nomes
Outros casos semelhantes reforçam a hipótese de uma rede criminosa especializada em heranças. Em 2021, após a morte de Charles Haxton, recluso que vivia sozinho em Tooting, também no sul de Londres, o nome dele apareceu no sistema público de bens não reclamados, o Bona Vacantia. Vários primos foram contatados como herdeiros legítimos — até que surgiu um novo testamento, nomeando outro cidadão húngaro: Roland Silye.
O mesmo padrão se repetiu: testamento com aparência suspeita, patrimônio subavaliado (abaixo do limite de taxação do imposto sobre herança) e nenhuma evidência de relação real com o falecido.
Além da casa em Londres, o testamento incluía uma casa em Hertfordshire, que Haxton nunca possuíra. A inclusão desse imóvel levantou suspeitas entre especialistas.
— Parece que alguém passou em frente à casa abandonada e pensou: “Vou colocá-la em um testamento” — afirmou Neil Fraser, de uma empresa de localização de herdeiros.
O valor estimado do patrimônio de Haxton foi registrado como £320.500 — apenas £4.500 abaixo do limite de isenção fiscal. O mesmo expediente foi usado por Silye em outros casos, como o de George Woon, cujo imóvel foi vendido em leilão por £360 mil.
Empresas fantasmas, endereços falsos e conexões suspeitas
As conexões entre os envolvidos chamaram a atenção de especialistas como Graham Barrow, que detectou ligações entre Szvercsok e Silye por meio de empresas registradas em endereços idênticos. Ambos seriam diretores em uma rede complexa de firmas fantasmas — algumas já excluídas por uso de dados fraudulentos, outras advertidas por não apresentar documentação financeira.
Outro nome que aparece nos documentos é Bela Kovacs, suposto herdeiro de Michael Judd, ex-membro de serviços de segurança. Vizinhos afirmaram que Judd não recebia visitas e tinha dito que havia perdido seu antigo testamento. Kovacs vive atualmente em uma casa de luxo, mas se recusou a comentar o caso.
Uma análise de caligrafia forense, feita por Christina Strang, mostrou indícios de que vários testamentos foram escritos pela mesma pessoa. A grafia de números e assinaturas apresentava padrões idênticos.
Sistema falho e impostos não pagos
O Bona Vacantia, sistema online do governo britânico, lista cerca de 6 mil nomes de falecidos sem herdeiros conhecidos. Embora tenha o objetivo de facilitar a sucessão legítima, o serviço também tem sido explorado por golpistas que produzem testamentos falsos e obtêm acesso aos bens com poucos cliques.
Desde 2017, o pedido de concessão de inventário pode ser feito inteiramente online, com declarações fiscais baseadas apenas na “boa-fé” de quem solicita. Não há verificação automática de valores, nem investigação sobre testamentos suspeitos. Com isso, milhões em impostos sobre herança também estão sendo sonegados.
— É um sistema baseado na confiança… e justamente por isso, vulnerável — afirmou um dos especialistas ouvidos pela BBC.
O caso ainda não teve desfecho judicial. Enquanto isso, os suspeitos seguem livres, com casas e patrimônios em nome próprio — e o Reino Unido enfrenta um desafio inédito: redes internacionais usando tecnologia e lacunas legais para lucrar com a morte alheia.

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