Biscoteiro é o carente de atenção. Ranço é entojo. Hype, até outro dia, era estar na crista da onda. E berro, que para os mais antigos era sinônimo de revólver, hoje significa rir exageradamente, explica o Guru dos Bons Conselhos, enquanto escreve na lousa branca.
Enrolado em uma capa de sofá verde, o comediante Paulo Carvalho, 70, discorre sobre gírias atuais e se coloca como uma ponte entre gerações. No entanto, entre os comentários da página, com mais de 748 mil seguidores, há quem seja millennial ou da geração Z e não conhece nenhum dos significados.
“Não sou idosa ainda, tenho 34 anos, mas essas aulas me ajudam também”, diz uma seguidora. “Isso prova que falhamos miseravelmente na educação do povo deste país. As pessoas não conhecem as palavras, não sabem o significado de coisas básicas”, afirma Carvalho ao #Hashtag.
O ator é um dos fundadores do grupo Comédia em Pé e somou os 20 anos de experiência aos conhecimentos do humorista e roteirista Vinicius Cacofonias, 42, com as plataformas digitais.
O personagem foi criado em 2023 como um idoso rabugento com discurso anti-coach. Sempre com um palavrão na ponta da língua, quebrava a expectativa de conselhos positivos. “Meu raciocínio era o seguinte: a gente mora num país absurdamente etarista e eu sou velho. Então as pessoas vão me odiar de um jeito que a gente não vai durar duas semanas nisso”, diz Carvalho.
Eles foram ao Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, e gravaram dezenas de vídeos. Em semanas, os conteúdos bateram a marca de um milhão de visualizações.
Mas nem só de xingamentos vive uma página de humor, e a dupla precisou testar formatos até chegar em um de seus produtos de maior sucesso: a aula de “idosês”, a língua dos idosos.
“Para um show montado, que dure anos, é muito bom um personagem agressivo. Para a internet, isso durou um ano, mas gera um cansaço”, diz Cacofonias. Ele administra o perfil, escreve os roteiros, edita e também atua como discípulo do guru nos vídeos.
O comediante, que foi roteirista do “Zorra Total” na Globo, anotou o formato de escolinha no bloco de notas do celular há muito tempo. “Achava que era muito manjado. Se bobear, a próxima ideia está no meu bloco de notas há um ano, e eu não sei.”
Entre outros quadros do perfil estão o choque de gerações —no qual o filho pequeno de Cacofonias dá seus pitacos culturais— e os mandamentos, as listas de dicas sobre temas variados, que vão de como tomar café até boas condutas nos grupos de WhatsApp.
Com a boa repercussão do conteúdo vem também o reconhecimento na rua. Carvalho relata que já foi recebido por gritos de fãs, que o chamam de “mestre”, mas sempre com o devido carinho e respeito.
Mesmo com uma carreira longeva, em que chegou a contracenar com Roberto Carlos em um comercial da Friboi de 2014, o comediante afirma que não sabe lidar com esse tipo de atenção. “A vida inteira eu fui um operário das artes, não tenho história de protagonismo”, afirma.
A dupla se encontra semanalmente para gravar e quer lançar um stand-up do personagem. A monetização pelo perfil se dá pela venda de ingressos para apresentações e o merchandising do guru —que já fechou parceria com uma empresa de hidromel.
Entre outras metas, Carvalho pensa em trocar o visual. Ele diz que se sente confortável com a barba, mas não se opõe a raspá-la no futuro. “Me olham demais, as crianças não aguentam”, diz, esbugalhando os olhos, e lembra que uma moradora de rua já tirou sarro. “Estava saindo do metrô, quando ela disse: ‘aposto que tem até bicho nessa barba!'”
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