O primeiro grande impacto na minha vida foi quando precisei morar com a minha mãe, entre os 12 e 14 anos. Ali, eu perdi o laço materno forte, porque precisei aprender a gostar dela – e eu gostava mesmo era da minha tia. Outra memória que tenho é que, na minha família, as mulheres eram sempre mulheres de alguém. E minha mãe parecia ter falhado nesse lugar, por não ter consolidado um casamento. Ela se tornou uma mulher desquitada e carregou essa mágoa por muito tempo. Cresci entendendo que ou você é mulher de alguém, ou é uma mulher que fracassa. Foi nessa época também que conheci o meu pai. Eu o vi na frente de um fórum, quando ele teve que me assumir. Mas eu não sentia rancor, nem falta, nem mágoa. Eu não tinha tido sua presença – então não sentia sua ausência. A religião também ocupou um espaço muito grande na minha infância. Foi essa tia quem me ensinou a ser Testemunha de Jeová. Ali, eu tive a minha segunda família, mas também as minhas primeiras culpas e limitações. Aquilo que era ou não era permitido. Comecei a trabalhar muito cedo, com 14 anos, no salão de cabelereiro de um shopping. Eu tive que amadurecer rápido. Então, sinto que foi uma infância pouco vivida, talvez. Uma infância marcada pela falta – mesmo que eu não tivesse noção dessa falta. Sinto que esse período foi atravessado por algumas ausências.

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