A sanha tarifária de Trump mexeu ontem com os mercados e, para analistas, tudo indica que terá novamente hoje uma forte influência nos números da Bolsa e do câmbio.
O mercado já estava fechado quando foi apresentada a sobretaxa ao Brasil, mas os negócios já refletiam as ameaças. Hoje, os investidores trabalharão com uma situação mais objetiva, apesar de Trump mudar de posição frequentemente.
O dólar fechou ontem em alta de 1,06%, a R$ 5,503, e o Ibovespa recuou 1,31%, aos 137.481 pontos, após o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciar que adotaria uma tarifa unilateral contra o Brasil. Com isso, o real teve ontem o pior desempenho frente ao dólar entre as 31 moedas mais líquidas do mundo.
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Com o pregão já fechado, Trump anunciou uma taxação de 50% sobre o Brasil, acima das previsões iniciais de agentes financeiros, que estimavam o tarifaço em até 30%.
Para o ex-diretor do Banco Central (BC) Tony Volpon, caso o governo brasileiro busque uma “reação comedida” ao anúncio de Trump, o efeito da tarifa para o câmbio, a Bolsa e outros ativos pode ser limitado.
Segundo ele, o principal risco para os ativos brasileiros com a taxação é se o governo do Brasil iniciar uma “batalha retórica” contra Trump.
— O risco dessa reação política é o mercado começar a precificar retaliações. Pode haver uma desvalorização muito mais forte do câmbio, não compensando a taxa, mas já antecipando outras retaliações de Trump — avalia Volpon.
Alexandre Schwartsman, também ex-diretor do BC, diz que a reação do mercado após o anúncio feito por Trump deve continuar na linha pessimista. Segundo ele, o câmbio deve voltar a subir, assim como os juros futuros, e a Bolsa, por sua vez, sofrerá novas quedas.
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Para além do efeito negativo nas exportações, o principal impacto que a decisão de Trump traz é político, sinaliza o economista. Ele cita que o republicano “deixou muito claro” a motivação por trás da alta taxa, o que avalia que deve ser aproveitado pelo atual governo como arma política para a retomada de sua popularidade.
Schwartsman afirma que “qualquer notícia que ajude o atual governo” é vista com maus olhos pelo mercado — o qual já começa, timidamente, a precificar o cenário das eleições no ano que vem.
Volpon destaca que os Estados Unidos são “muito mais poderosos que o Brasil” e que o poder de retaliação do republicano é maior do que o do governo brasileiro, o que dá uma perspectiva pior para nosso país:
— Se a gente entrar numa rota de conflito com os Estados Unidos, eles podem retaliar ainda mais.
Volpon salienta que, como o Brasil exporta majoritariamente commodities — produtos que podem facilmente ser substituídos por outros países produtores de matéria-prima —, os Estados Unidos devem buscar outra nação para suprir as perdas com o comércio brasileiro.
Nos EUA, otimismo com cautela
Nos EUA, mesmo com Trump sinalizando uma renovada determinação em seguir adiante com seus planos de taxar pesadamente as importações estrangeiras, os investidores têm voltado ao mercado de ações dos EUA, enquanto os operadores minimizam os temores de que essas tarifas possam levar a uma desaceleração significativa da economia global ou dos lucros corporativos.
— A maioria dos investidores acredita que a economia está forte, os lucros das empresas serão resilientes e estão ansiosos para comprar ações — disse Chris Zaccarelli, da Northlight Asset Management. — Acreditamos que mais cautela é necessária, pois ainda não vimos o impacto das tarifas sobre os lucros corporativos e o consumo.

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